Por que a Bolsa não reflete a realidade, e sim a expectativa

11/12/2020

A bolsa de valores reflete e tenta antecipar os movimentos do futuro, e esse futuro parece ser muito melhor do que a realidade atual.

Gosto de pensar que minha mãe, assim como a maioria das mães, sempre pensou no futuro e sempre quis proporcionar o melhor que ela podia para mim e minha irmã.

Sempre escutei, a minha vida inteira, que educação é um investimento, e não um gasto, além de ser um tesouro que ninguém pode tirar de você. Hoje consigo enxergar o quão certa ela estava (pode ser chato, mas elas quase sempre têm razão!), principalmente quando me matriculou nas aulas de inglês.

Verdade seja dita, eu odiava ir para as aulas. Em meus plenos 11 anos, eu queria mais era jogar bola no play do prédio, jogar meu Mega Drive, dormir depois do almoço ou simplesmente assistir ao filme que ia passar na Sessão da Tarde.

Toda segunda e quarta era aquele terror… Eu chorava, esperneava, não queira ir de jeito nenhum. Na minha cabeça, ir para as aulas era muito chato e uma perda de tempo. E logo vinham os sermões da minha mãe, nos quais ela demonstrava sua preocupação acerca do meu futuro, pois ela sempre deixou claro: tinha expectativas altas em relação a mim.

Mas, conforme o tempo foi passando, comecei a perceber o quão importante e legal era saber inglês. Eu conseguia entender exatamente o que a música de amor não correspondido dos Backstreet Boys falava, conseguia assistir a filmes e séries de forma tranquila, e a cereja do bolo: quando viajei para fora do país sozinha pela primeira vez consegui me virar tranquilamente!

Acho que atendi às expectativas, e ela deve estar orgulhosa – ou, pelo menos, aliviada.

E o que tudo isso tem a ver com a Bolsa de Valores?

A Bolsa tem a tendência de ser foward-looking, assim como minha mãe foi lá atrás. Ou seja, trabalha com as expectativas do futuro, e não com o que está acontecendo agora.

Muito provavelmente você percebeu que no ano de 2020 não foi diferente. Lá em março, quando foi declarada a pandemia da Covid-19, o cenário futuro parecia muito incerto e sombrio, não tínhamos noção do que poderia acontecer. Não à toa, as Bolsas ao redor do mundo despencaram.

Mas, ao longo dos meses, por mais que estivéssemos vivendo uma realidade dura de hospitais lotados, lockdown, distanciamento social, desemprego e um dos piores anos em termos econômicos, a Bolsa estava subindo e se recuperando do tombo de março.

Como assim?

A Bolsa de Valores não reflete a economia no curto prazo.

No mercado acionário, nós trabalhamos com expectativas futuras das empresas. E, quando você se torna acionista de uma companhia, você está comprando a expectativa de lucro futuro dela, e não apenas máquinas, estoque e a sede em que ela está instalada. O valor de uma ação reflete o valor presente do seu fluxo de caixa futuro.

E, no momento mais agudo da notícia da pandemia em março, essa expectativa futura ficou nublada, os investidores não sabiam ao certo o que ia acontecer nem como as empresas iam se comportar. A incerteza era muito grande.

Entretanto, as atuações dos bancos centrais ao redor do mundo na forma de injeção de liquidez, diminuição das taxas básicas de juros, os pacotes de ajuda fiscal e a perspectiva de controle da doença com as vacinas conseguiram trazer alívio e a expectativa de uma recuperação econômica rápida num futuro não muito distante.

A Bolsa de Valores reflete e tenta antecipar os movimentos do futuro, com os investidores pensando sempre nas probabilidades do que pode acontecer. E esse futuro parece ser muito melhor do que a realidade atual.

Então, entenda que, quando falamos de Bolsa de Valores, estamos falando de expectativa do futuro, e não do agora.

Por mais descasadas que a realidade e o futuro possam parecer, lembre-se de que, assim como a minha mãe sempre trabalhava com altas expectativas acerca do meu futuro (que pressão!), a Bolsa hoje está refletindo a expectativa de uma realidade econômica no futuro – no caso atual, de recuperação.

Mas vamos lembrar que de nada adiantaria minha mãe criar expectativas e insistir em mim se eu não estudasse e não me dedicasse. Então, se quiser aproveitar o que a Bolsa projeta para o futuro, o momento é agora.

Fonte: Valor Investe

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