Ibovespa deve subir 11% em 2021 embalado pelos lucros das empresas, acreditam os analistas

30/12/2020

Na média, entre 14 casas de análise e bancos consultados pelo Valor Investe, o índice deve chegar em 132.840 pontos no próximo ano. Não sem possíveis instabilidades pelo caminho, claro, mas o céu parece ser o limite

A analogia da montanha-russa para o Ibovespa em 2020 é perfeita. Feito um vagão de parque, mas sem diversões, foi à máxima histórica já em janeiro, aos 119.527 pontos. Depois, mergulhou em exatos dois meses nada menos que 47%, para, então, não sem sustos pelo caminho, embalar numa alta de 93,6% desde o fundo do poço (em março) até os 119.409 pontos de ontem. Isso tudo para acumular alta de só 3,25% em 2020. Ufa! Até nós cansamos, só de escrever esse movimento digno de eletrocardiograma de um cardíaco.

Para quem gosta de altura, mas não de reviravoltas na rota, uma boa notícia: a analogia das previsões para o índice em 2021 está mais para a do foguete agora. Na média entre 14 casas de análise e bancos consultados pelo Valor Investe, vem uma decolada do índice de 11,25% até dezembro do ano que vem, para 132.840 pontos. Não sem possíveis instabilidades pelo caminho, claro, mas o céu parece ser o limite.

Entre as projeções mais otimistas está a da Trígono Capital, que vê Ibovespa em 145 mil pontos no fim do ano que vem. “É baseado no crescimento de lucros, juros baixos e em dólar, o Ibovespa ainda está 25% descontado. Investidores institucionais terão que aumentar exposição em bolsa, sub alocados e necessariamente tomar mais risco”, diz Werner Roger, chefe de investimentos da Trígono Capital.

Roger destaca a maior busca de investidores estrangeiros por mercados emergentes. “O Brasil tem liquidez, bons gestores e grandes corretoras e bancos de investimento que fazem o ‘sell side’ e nosso marketing”. diz. Esse otimismo só vale, contudo, se o quadro da pandemia de covid-19 não deteriorar.

Para o executivo, a situação de saúde preocupa muito mais do que os riscos fiscais do país. “O fiscal depende de nós, o problema e soluções são conhecidos. A covid não. O tempo foi muito curto dos testes. Tudo apressado. Não sabemos o efeito no longo prazo e se podem surgir mutação resistente. É um inimigo invisível, sorrateiro e mortal”, avalia.

“É possível que a ausência de reformas e ajustes fiscais piorem as estimativas para o final do ano, mas, olhando por outro lado, a retomada da atividade global (pós-covid) e o ambiente de estímulos fiscais e monetários que devem perdurar por 2021 devem influenciar positivamente os ativos”, afirma Jonas Chen, diretor de investimentos da Onze, empresa de previdência privada, que vê o Ibovespa em 135 mil pontos em um “cenário conservador”.

Com o índice projetado para “algum momento de 2021” nos mesmos 135 mil pontos, o banco digital Modalmais vislumbra obstáculos possíveis vindos de Brasília. “Depende muito de coisas como a votação do Orçamento de 2021 e, principalmente, o endereçamento de reformas e ajustes fiscais“, diz Alvaro Bandeira, economista-chefe da instituição.

Na visão dele, caso as decisões sejam tomadas rapidamente e de maneira certeira no Congresso, os mercados tendem a reagir positivamente com mais força. “A partir daí, tende a vir um ingresso de recursos que vai facilitar não só a evolução do mercado secundário, mas também a abertura de capital de novas empresas”, diz.

Outro empecilho possível, na visão de Bandeira, não é fiscal, está na crise sanitária responsável pela deterioração das contas públicas em 2020. “Ainda não sabemos o que acontecerá em relação à imunização da população brasileira, então é um quadro ainda muito indefinido.”

Santander também projeta o Ibovespa em 135 mil pontos em 2021. A explicação, segundo Daniel Gewehr, estrategista-chefe de ações do banco, está na perspectiva positiva para o lucro das empresas listadas, baixo posicionamento do investidor estrangeiro, rotação global para ações cíclicas e “valuation” atrativo. O fenômeno, entretanto, não é somente brasileiro e sim de todas as bolsas na América Latina.

Abaixo desse patamar, para a XP Investimentos, o valor justo para o Ibovespa no fim de 2021 é de 130 mil pontoscom base na expectativa de que a melhora econômica deve continuar acontecendo de forma consistente. Fernando Ferreira, estrategista-chefe da XP, avalia ainda que o aumento da liquidez mundial continuará impulsionando a bolsa.

Isso porque muitos bancos centrais e governos criaram pacotes de estímulos econômicos e devem continuar com medidas semelhantes em 2021. A consequência disso é um aumento do dinheiro em circulação, que deve ser alocado em ativos de renda variável, uma vez que os juros globais estão baixos – e devem permanecer assim por um bom tempo.

O Bank of America (BofA) também espera que o Ibovespa feche o próximo ano em 130 mil pontos. Segundo o banco, o principal motor para a valorização estimada para o Ibovespa é a recuperação dos lucros em 2021 e 2022 nos chamados “setores cíclicos”, que costumam seguir a tendência da economia do país e detêm os maiores pesos do índice, como materiais básicos, energia e finanças.

“O custo de capital deve permanecer baixo devido às baixas taxas em todo o mundo. Os prêmios do país estão diminuindo, mas a situação fiscal na região é um risco. No entanto, esperamos que a deterioração fiscal permaneça contida”, avalia o time do BofA. Apesar do viés otimista para o Brasil, os analistas lembram que “não há vacina para as doenças fiscais“.

Pesquisa realizada pelo BofA junto a gestores de recursos da América Latina mostra que 54% dos entrevistados acreditam que o Ibovespa ficará acima de 130 mil pontos em 2021.

Esse espécie de “consenso do mercado” de Ibovespa em 130 mil pontos já tem viés para cima do Bradesco BBI. “Estamos com o cenário de Ibovespa a 130 mil pontos desde setembro. Hoje, nos questionamos se precisamos aumentar esse número. Os riscos apontam para mais de 130 mil pontos no fim de 2021”, afirma André Carvalho, estrategista-chefe de ações do banco, ao ressaltar que a bolsa ainda tem bastante prêmio a ser aproveitado.

Projeções para o Ibovespa em 2021

Quem?Quanto?
Ativa128.000
BB Investimentos130.000
Bradesco BBI130.000
BofA130.000
Genial128.767
Goldman Sachs125.000
Guide135.000
Modalmais135.000
Onze135.000
Portofino135.000
RPS Capital138.000
Santander135.000
Trígono145.000
XP130.000
Média132.840

Entre as projeções de voos mais comedidos, está da Ativa, de 128 mil pontos projetados. O principal motor de propulsão, na visão da casa, serão os papéis dos bancões e da B3.

Depois de apanharem desde antes da crise, as ações continuarão no próximo ano o processo de retomada de altas iniciadas nestes últimos meses. “Os bancos fizeram provisionamento muito grande na crise”, diz. “Até achamos que a inadimplência cresce no ano que vem um pouco, mas acho que o nível feito de provisionamento foi suficiente para isso e que talvez haja reversão desses números e aumento de lucros“. A rotação dos investidores, realizando parte dos lucros de quem disparou na crise para comprar papéis que ficaram para trás, deve seguir dando o tom, na visão do gerente do setor de análise de empresas da Ativa Investimentos, Pedro Serra.

Sobre os papéis da B3, a aposta da Ativa é nas estreias de empresas (IPOs) na bolsa. “As mesmas variáveis vão seguir colocadas para 2021, juros baixos e liquidez alta, e ameaças de competição para a B3 são exageradas, não devem ser significativas no curto prazo.

Sozinhas, ações de B3 e bancões respondem no momento por 22,8% da carteira teórica do Ibovespa. Se vão bem, o índice agradece ao ser puxado para cima.

Outra rotação, a geográfica, igualmente continua, diz Serra, da Ativa. “A gente acredita que o que aconteceu em 2020 foi temporário, tivemos uma correção grande entre janeiro e março, e uma aversão muito grande dos investidores estrangeiros, mas tudo que aconteceu, felizmente, não será para sempre”, diz. “O Banco Central pela primeira vez pode agir como os pares internacionais, cortou os juros e os investidores pessoa física entraram forte na bolsa, quem ganhou dinheiro mesmo com a retomada foi essa parcela dos investidores.”

Agora, diz Serra, saindo de cena o que afligia os investidores internacionais – com vacinas começando a ser aplicadas e eleições americanas já resolvidas -, são eles quem vão turbinar o Ibovespa ao retornar à bolsa brasileira. “Talvez num volume menos intenso do que temos visto, mas continuará vindo fluxo estrangeiro”, diz.

Goldman Sachs está menos otimista que a Ativa, com projeção de 125 mil pontos para o índice, com bons desempenhos dos setores bancário e industrial.

Segundo o banco, as ações brasileiras estão entre as que mais têm reagido positivamente aos desenvolvimentos de vacina, provavelmente devido ao alto beta do risco global e também devido ao forte número de contágio do vírus dentro do país. “Se a alta cíclica continuar a ocorrer com preços das commodities subindo, esperamos que as ações brasileiras continuem com o forte desempenho recente”.

Fonte: Valor Investe

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